segunda-feira, 2 de março de 2015

Fortaleza – Tobago Cays


É incrível como uma viagem dessas, além da aventura em si, nos proporciona uma série de aprendizados, muitas vezes de coisas básicas, que sempre tivemos em mente como “óbvias” mas no entanto não eram tão ‘obvias assim. Vou dedicar vários parágrafos, nessa e nas narrativas futuras, para destacar essas “lições”, coisas que pensava saber mas não tinha a menor ideia de que não sabia. Espero que sejam úteis para vocês também!

Saindo de Fortaleza
Dia 01
Distância percorrida: 180 milhas
Velocidade média: 7,50 nós
No dia 08 de Novembro de 2014 as cinco e meia da tarde começou de fato a etapa internacional da volta ao mundo. Éramos três pessoas a bordo: Eu o Ruy, até agora presente em quase todas as pernas, e o Osvaldo Hoffmann, grande amigo e navegador de Curitiba. O destino inicial era a ilha de Grenada, no sul do Caribe, onde já estava programado um "upgrade" no Blue Wind. Curiosamente havia pouco vento naquele final de tarde, então motoramos por umas duas horas até que entrou um vento que nos possibilitou colocar o balão.
Tripula
Por volta das onze e meia da noite o vento aumentou muito e tivemos dificuldade para baixar o balão. O cabo do enrolador caiu na água e foi difícil trazer de volta, uma vez que o Blue Wind desenvolvia uma velocidade de 9-10 nós e também pelo tamanho da onda. Não consegui segurar o barco, perdi o leme e o barco atravessou! Só consegui arribar depois que o vento diminuiu e o piloto automático conseguiu, literalmente, “segurar a onda”. Conseguimos finalmente enrolar o balão e como o vento continuava forte (22-25 nós) seguimos apenas com a vela grande.
Primeira lição: Balão à noite? Pra que? Ninguém aqui está correndo regata e nem vai “tirar o pai da forca”, então para que assumir riscos desnecessários?

      
Primeiros velejos de kite no Preá
Na semana anterior aproveitamos para conhecer Jericoacoara, um antigo desejo o qual não havíamos ainda realizado por pura falta de oportunidade. Fiz um curso intensivo de Kitesurf, no Rancho do Peixe, que me rendeu vários “caldos”, mas finalmente, depois de alguns dias, saí velejando de kite. Agora só falta comprar o equipamento e começar a treinar. Como tudo na vida, a segurança só vem com as “horas de vôo”. 

A Ani também se pilhou para fazer o curso, no entanto quando ia começar as primeiras aulas na prancha, torceu o tornozelo saindo do mar e, naquele momento, acabou o cursinho dela. Mas quem não tem cão caça com gato! No dia seguinte ela achou uma escola de surf e aproveitou para fazer umas aulas em Jeri. Nada mau pra quem quase não podia caminhar no dia anterior!

    
Passeio de Buggy em Jericoacoara


Por conta da semana anterior, lá pelas nove e meia da manhã, resolvi dar um “jaibe” para a praia quando estava a umas 12 milhas de Jericoacoara, pra ver se via a galera do kite velejando por lá, Mas como foi ficando raso rapidamente, resolvi dar outro jaibe voltando para a rota original. Nada de correr riscos desnecessários, lembram da Primeira Lição?




Lá pela uma e meia o vento aumentou para 26 nós e a onda cresceu para uns dois metros. O barco aumentou a média para 8-9 nós com picos de dez nas rajadas. 
Mantivemos a vela grande, sem rizar.

    Dia 02
    Distância percorrida: 187 milhas
    Velocidade média: 7,80 nós
Nessa noite aconteceu algo inédito, pelo menos para mim. No meio da madrugada escutei uns barulhos estranhos e saí para o cockpit para ver o que estava acontecendo. Vejam só, estava chovendo... Chovendo peixes!! Sim, dezenas, de peixes pulando para dentro do barco, talvez atraídos pelas luzes, não sei bem, mas o fato é que havia peixe voador pra todo lado. Na proa, no cockpit, debaixo dos cabos, nos trilhos de genoa e até dentro do barco, embaixo da escada de acesso ao cockpit. Incrível! Deu uma trabalheira enorme tirar todos eles do barco.
O vento vinha caindo constantemente pela proximidade da Zona de Convergência Intertropical, mais conhecida como “Doldrums”, uma zona normalmente de muita calmaria que se estende por umas 400 a 500 milhas próximo da Linha do Equador.

Reserva técnica de diesel
Uma viagem dessas se caracteriza por muita rotina. Checar a navegação, cozinhar, se alimentar regularmente, verificar constantemente se há algum perigo iminente pela frente, como barcos de pesca, redes, navios, entre muitas outras tarefas como pescar, checar regulagem de velas, etc.. Para que a viagem seja segura é necessário sempre haver alguém acordado, alerta, checando visualmente se há algum perigo pela frente ou se o barco não saiu do rumo. Para que todos possam descansar implantamos um sistema de turnos, com horários fixos para cada um, igualmente distribuídos nas 24 horas do dia, de maneira que cada um “trabalha 2 horas e 40 minutos e descansa 5 horas e vinte minutos. Funcionou muito bem, pois não é muito tempo para ficar de guarda e o tempo de descanso é bem generoso. Funcionava assim:

19:00 as 21:40         Osvaldo
21:40 as 00:20         James
00:20 as 03:00         Ruy

03:00 as 05:40         Osvaldo
05:40 as 08:20         James
08:20 as 11:00         Ruy

11:00 as 13:40         Osvaldo
13:40 as 16:20         James
16:20 as 19:00         Ruy

    Dia 03
    Distância percorrida: 193 milhas
    Velocidade média: 8,04 nós
À noite nos demos o luxo de fazer um churrasco com arroz e feijão. Detalhe: velejando com o balão em cima à 8 nós, vento de 10-12 nós e o mar parecendo uma piscina, comendo na mesa do cockpit. Mais tarde um velejo memorável, a lua nascendo, o mar prateado velejando de balão a 9-10 nós, com ventos de 12-14 nós.
Parece que não aprendemos muito com a Primeira Lição...


Cruzando a Linha do Equador
Abrimos um vinho para celebrar esse momento mágico.
Cruzamos a linha do equador exatamente às 00:02h de terça-feira dia 11/11/14. Passamos velejando a uma velocidade de 8,3 nós com 12,5 nós de vento e, pra completar o cenário, com a lua cheia!

Às 6 da manhã, um pouco depois do início do meu turno resolvi dar uma checada na linha. Vejam só, um dourado de uns 4Kg. Almoço e janta garantidos pelos próximos dias! Comemos assado com batatas ao murro no forno. Delicioso!
Baixamos o balão para checar a adriça, que estava muito comprometida.   O Ruy teve que refazer o reforço para que pudéssemos continuar velejando.

    Dia 04
    Distância percorrida: 215 milhas
    Velocidade média: 9,00 nós
Média histórica, 215 milhas em 24 horas, uma velocidade média de 9 nós, incrível. Acho que nunca conseguiremos repetir isso!


Registro do recorde de singradura em 24 horas
    Dia 05
    Distância percorrida: 208,5 milhas
    Velocidade média: 8,70 nós
Às 13:00h passamos pelo Cabo Orange e entramos em águas internacionais. O Cabo Orange é o lado brasileiro do famoso Rio Oiapoque, divisa do Brasil com a Guiana Francesa. São exatas 931 milhas de Fortaleza até Cabo Orange. Impressionante como é grande o Brasil.

    Dia 06
    Distância percorrida: 190 milhas 
    Velocidade média: 7,90 nós
De manhã cedo, logo no início do meu turno (5:40 às 08:20) coloquei a linha na água e logo veio o primeiro peixe, um atum de mais ou menos um kg. Como era pequeno, joguei a linha de novo e uma meia hora mais tarde, outro atum, do mesmo tamanho. Pronto, recolhi a linha pois já estava resolvido o almoço.
O vento caiu bastante, a correnteza virou, quase 1 nó contra, e o barco começou a perder muita velocidade. Às 12:50hr baixamos o balão e começamos a motorar, pela primeira vez em toda a viagem, após haver percorrido 1.130 milhas.

Por do sol em alto mar

    Dias 07 e 08 
    Distância percorrida: 379 milhas
    Velocidade média: 7,90 nós
Se existe algo chato quando se navega são os “Pirajás”.
São formações de nuvens, normalmente associadas a muita chuva e vento forte e que duram apenas alguns minutos, mas são suficientes para transformar a viagem em um pesadelo se você não é capaz de perceber com antecedência a chegada deles e preparar o barco para sua breve passagem.
O Caribe em Novembro é extremamente rico em “Pirajás”, especialmente à noite quando a única forma de antecipar-se à eles é monitorar o radar constantemente, pois, felizmente, eles são detectáveis por essa maravilha da tecnologia moderna.
Mais adiante eu me daria conta que esses fenômenos da natureza selvagem são muito comuns no Caribe também em Dezembro e Janeiro pois todo o tempo que estive por lá tive que aprender a conviver com eles.

Pirajá
Pirajá



    






    
    Dia 09
    Distância percorrida: 190 milhas
    Velocidade média: 7,90 nós
No dia anterior, à noite, nosso rumo ainda era Grenada. Eu havia planejado chegar na Grenada Marine para subir o barco no dia 19 de Novembro. Eu pretendia instalar uma targa para o bote inflável, dois geradores eólicos, uma placa solar e um sistema de internet a bordo via satélite conhecido como Fleetbroad Band, que permite baixar e-mails e previsões de tempo diariamente, essencial para o projeto de dar a volta ao mundo de barco. Como estávamos chegando com dois dias de antecedência, o Osvaldo me convenceu a tocar direto pra Tobago Cays e aproveitar esses dois dias para descansar um pouco da longa viagem que estava por terminar. Dito e feito! Mudamos o rumo na mesma hora.

Blue Wind no meio do Horse Reef
No dia seguinte, exatamente ao meio dia e vinte chegamos em Tobago Cays!
Passamos o dia descansando, mergulhando com tartarugas sabendo que, finalmente, teríamos uma noite tranquila com o barco amarrado em uma poita no Parque Nacional de Tobago Cays.
Noite tranquila? Até parece... No meio da noite entrou um Pirajá fortíssimo, com ventos de 45 nós que nos fez pular da cama como gatos. Ventava tanto que a chuva vinha na horizontal!! Mas o barco e poita resistiram bravamente...
Até as 6 da manhã quando escutei um barulho diferente, parecia um cabo se rompendo... Coloquei a cabeça pra fora da gaiuta e percebi que o barco estava à deriva! Saí correndo pela gaiuta mesmo e corri para o cockpit. Felizmente cheguei a tempo de ligar o motor e levar o barco de volta à poita antes de chegar nas pedras do outro lado da baía!! Ufa, que sufoco...

Ocorre que o olhal da poita, onde se amarram os cabos, estava com uma bolha de ferrugem. Com o vento forte que soprou a noite toda os cabos ficaram roçando nessa bolha e, com o atrito constante, os dois cabos acabaram rompendo. Que perigo!

Segunda lição: Nunca confie em uma poita que não foi inspecionada cuidadosamente por você mesmo. Não fosse o hábito que tenho de dormir no barco com um olho fechado e outro aberto, nossa primeira noite no Caribe poderia ter se transformado em um enorme pesadelo!

Bons Ventos e até o próximo post!!

domingo, 23 de novembro de 2014

Oitava Perna: Noronha -> Fortaleza


Após quase uma semana de descanso em Noronha, depois da atribulada REFENO deste ano (ver post anterior), no Sábado dia 04 de Outubro às 7 e meia da noite saímos de Fernando de Noronha rumo a Fortaleza.

Nem sempre a vida no mar é um "mar de rosas", principalmente no que diz respeito à burocracia da Capitania dos Portos para emitir um despacho (documento de entrada e/ou saída de um porto, obrigatório para embarcações que entram ou saem do país por qualquer porto brasileiro).
Pera aí… e o que temos que ver com isso, se não estamos nem entrando nem saindo do país e somos um barco brasileiro, com tripulação brasileira? Ocorre que Noronha, por ser uma ilha oceânica, não se insere na mesma categoria dos outros portos. Quem chega ou sai de Noronha necessariamente estará navegando em mar aberto, precisando para tal cumprir com uma série de exigências feitas pela Marinha em prol da segurança da tripulação. A habilitação exigida é de Capitão Amador e entre os equipamentos obrigatórios estão a balsa salva-vidas e o EPIRB, um emissor de sinais via satélite que pode ser disparado (ou dispara automaticamente em caso de contato com a água) e envia a localização exata do barco para as autoridades responsáveis pelo resgate, em caso de emergência. Como estamos com tudo em dia, não tivemos dificuldade de obter o despacho. Fui atendido pelo Sgt Eugênio que prontamente me concedeu o despacho de saída da ilha.

A tripulação dessa vez estava composta por mim, pela Ani e pelo Ruy. Saímos de Noronha ao anoitecer do dia 04, calculando chegar no Atol das Rocas no dia seguinte pela manhã, pois ainda tínhamos esperanças de poder fazer uma "parada técnica" e, quem sabe, poder desembarcar e conhecer aquele magnífico santuário. Infelizmente não foi possível desembarcar, mas ao menos conseguimos permissão para fundear e passar algumas horas por lá, quando aproveitamos para fazer um churrasco, descansar um pouco e também consertar o desalinizador que não estava produzindo água desde à noite anterior.

O vento estava muito forte e a ancoragem na barreta de NW estava muito desconfortável. A âncora ficou presa em uma pedra e tive que mergulhar para soltá-la. Estávamos com uns 8-9 metros de profundidade, o que tornou a operação bem difícil. Voltei para a superfície no limite de meus pulmões, felizmente com a missão cumprida pois se precisasse descer de novo acho que não teria mais fôlego para isso.

Rumamos então para Fortaleza, nosso último porto brasileiro antes de iniciar nossa jornada em águas internacionais. A viagem foi ótima, apesar de o mar estar bem agitado na maior parte do tempo. Apenas nas últimas 24 horas tivemos um descanso pois o mar acalmou e tivemos uma navegação em popa rasa fantástica, apenas com a vela grande em cima e ventos de 22-25 nós, empurrando o Blue Wind a invejáveis 10 nós de velocidade. A Ani não mareou em nenhum momento, mesmo tendo optado por não tomar remédio para enjôo, o que tornou nossa navegação ainda mais prazerosa.

Às 21:40hs do dia 06 de Outubro chegamos à Fortaleza. A maré estava baixa o que dificultou a entrada na marina do hotel Marina Park. Decidimos então ancorar do lado de for a da marina e dormir, ficando a tarefa de atracar o barco para o dia seguinte. Imaginem como foi nossa noite após 52 horas no mar… Literalmente apagamos! No dia seguinte atracamos o barco, fomos muito bem recebidos pelo Armando, gerente da marina, que faz de tudo para que os velejadores que por lá passam se sintam em casa. Dois dias depois fechamos o Blue Wind e voltamos todos para casa, para resolver as últimas pendências em terra antes de iniciar nossa próxima perna, dessa vez bem mais longa, rumo ao Caribe.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sétima perna: Recife - Noronha


   A semana anterior à REFENO (famosa regata oceânica entre Recife e Fernando de Noronha), que fazia parte de nossa rota rumo ao Caribe, foi muito agitada. Chegamos ao Iate Clube Cabanga, que organiza a regata, no domingo dia 21 de Setembro, seis dias antes da data prevista para a largada. Depois de uma travessia relativamente tranquila (para alguns e nem tanto para outros) entre Maceió e Recife, decidimos comer um merecido churrasco em uma das melhores churrascaria de Recife.


Pré-largada
 Na segunda-feira começou a clássica função da regularização do barco para a regata. Apresentação de certificado de medição, inspeção da marinha, instalação da base de dados do Iridium para poder ter comunicação em alto mar, compra das cartas náuticas faltantes, reunião de comandantes e todas aquelas burocracias necessárias para obter a liberaçāo da Marinha do Brasil para "lançar-se ao mar".

   A Marinha leva tudo isso muito a sério nessa regata pois não se trata apenas de uma navegada próxima à costa mas sim de uma singradura oceânica, onde os competidores enfrentarão condições adversas dia e noite. 

   Dessa vez a Ani estava o tempo todo junto, dormindo no barco, participando de tudo e super entusiasmada com a idéia de participar da regata como tripulante, mesmo depois de ter passado mal na ultima perna, por conta de haver ficado mareada por muitas horas.

Largada
O final da semana e da largada se aproximava e eu acompanhava cuidadosamente a previsão do tempo para não ter nenhuma surpresa desagradável que pudesse  comprometer a motivação e o sucesso da velejada. Era minha intenção nessa perna apagar a "má impressão" que se formou na mente da Ani após o trecho entre Maceió e Recife. Nossa tripulação seria, a princípio, cinco pessoas, mas como a previsão do tempo foi se modificando no decorrer da semana (para pior), decidimos que a Ani não participaria da regata pois sem dúvida a navegação que nos esperava pela frente seria muito dura. Na última hora meu amigo Tonho, de Maceió, parceiraço de várias REFENOS e amigo de muitos anos, me ligou e me avisou que também não poderia ir.

    Acabamos com somente três tripulantes: eu, o Ruy e o Marcel Miranda, outro amigo alagoano, velejador dos bons e também grande parceiro de outras REFENOS.

   Tudo organizado, no sábado de madrugada saímos do Cabanga  para o PIC (Pernambuco Iate Clube) pois devido ao nosso calado precisávamos sair com a maré alta, que acontecia as 5:30 da manhã naquele sábado, caso contrário corríamos um grande risco de ficar encalhados e perder a largada da regata.

Ruy no início da Regata
   À uma da tarde largou nosso grupo, com um vento de través consistente que  nos proporcionou um bom início de regata. Rumamos para a Praia da Boa Viagem onde estava a primeira (e única) bóia da prova. Nos aproximamos rapidamente para montar a bóia e quando chegamos nela… Pasmem, o vento parou!  Putz, bem agora! O leme não respondia, não conseguíamos cambar, o mar agitado e nem uma brisa pra ajudar!
   Resultado: a correnteza nos arrastava para trás, não tínhamos controle sobre o barco e acabamos batendo na marca, que tinha dois fiscais dentro, pois na verdade a bóia era um bote. Um deles, vendo nosso desespero, nos estimulou a seguir em frente, no entanto decidimos pagar um 360° (penalidade prevista na regra nessa situação) invocando o mais nobre espírito esportista que todo competidor deve ter e nos tornando assim os primeiros idiotas da história das REFENOS a pagar um 360 na montagem da única bóia da regata!! Começamos bem!!

   Em seguida, como se tudo não passasse de uma ilusão, o vento voltou a soprar e o Blue Wind começou a velejar com toda elegância que lhe é peculiar, deslizando graciosamente nas águas de Recife e iniciando finalmente sua jornada rumo a Fernando de Noronha.

Eu e Ani na Praia do Leão
   O barco andava bem, nos preocupávamos constantemente com a trimagem das velas e com o rumo, pois ter sucesso nessa regata depende basicamente de dois fatores: andar em linha reta (manter o rumo) e com velocidade (regular as velas constantemente). Mesmo com a tripulação reduzida conseguíamos manter um ótimo ritmo, com o vento aumentando e com o mar engrossando cada vez mais.

   Ao cair a noite o vento já estava na casa dos 25 kn e as ondas chegavam próximas dos 3 metros e meio, deixando a navegada bastante desconfortável. Na madrugada de sábado para domingo já estávamos com todas as velas reduzidas e, mesmo assim, o Blue Wind mantinha um ritmo entre 7,5 e 8,5 kn, muito bom considerando que o barco está muito pesado pela quantidade de equipamentos que carrega. Somente na madrugada de domingo para segunda é que o vento deu uma acalmado nos possibilitando finalmente colocar todos os panos para cima.

Noronha
   Cruzamos a linha de chegada exatamente às 4:55h da manhã, fazendo as 300 milhas entre Recife e Noronha em 39 horas e 55 minutos, excelente se considerarmos as 2 horas que perdemos desde a largada até a desastrosa montagem da bóia da Praia de Boa Viagem, em Recife.

   Fomos o 24° barco a cruzar a linha, entre um total de 70, e o 4° na nossa classe. Tudo parecia estar se encaminhando para um ótimo resultado… Não fosse por erro em nosso certificado de medição…

   Chegar de barco em Fernando de Noronha… Uma sensação única, indescritível! Essa deve ter sido a minha oitava ou nona REFENO, mas sempre é como se fosse a primeira. Essa ilha é mágica, tem uma energia única e mesmo estando exaustos da regata sentimos uma enorme sensação de bem estar quando fundeamos no porto de Noronha, provavelmente  um dos únicos portos do mundo onde você é calorosamente recepcionado pelos golfinhos, essas adoráveis "crianças do mar" que parecem estar sempre de alto astral!

   Saldo da regata: tripulantes de vários barcos passando mal pela condição incomum de mar pesado nessa época e vários abandonos, sendo que um catamarã capotou e afundou. Por sorte toda a tripulação foi resgatada, sem maiores consequências, exceto pelo susto.

   A semana em Noronha foi perfeita, a Ani chegou na segunda-feira de avião e ficamos até sábado na Ilha, aproveitando cada minuto no paraíso.

   Na quarta-feira saiu o resultado da regata. Todos ansiosos, será que ganhamos? Talvez não, mas no mínimo esperávamos subir ao pódio.  Velejamos muito bem, andamos rápido, tínhamos certeza que havíamos exigido tudo do barco… Chegávamos a superar os 10 knt. de velocidade em alguns momentos, literalmente surfando as ondas, que a essa altura já vinham de sudeste, ajudando bastante na performance do barco.

Chegando em Noronha   
 
Vejam só qual não foi nossa surpresa quando vimos o resultado de nossa classe, a RGS A: Blue Wind 1° lugar… Ops, faltou um zero… Na verdade, 10° lugar!! Caracas!! Como pode ser? Fizemos tudo tão certinho… Pois é, mais tarde, quando me refiz do "balde de água fria",  parei para comparar nosso rating com o dos concorrentes, na tentativa de entender o que estava acontecendo, e só então me dei conta do absurdo que é a regra da RGS no Brasil. Barcos similares ao nosso, como por exemplo o Delta 45, que deveriam ter ratings muito parecidos, tinham ratings absurdamente menores a ponto de nosso barco "pagar" mais de 4 horas em uma regata de 40 horas como essa. Começo a entender porque essa regra está cada vez mais sendo abandonada pelos competidores mais sérios que estão migrando para a ORC, uma regra muito mais justa e profissional que a RGS.

Comemorando a chegada!!
   Mas como diz o ditado, o importante é competir! Seja em primeiro, seja em décimo, mais uma perna de nossa aventura foi concluída com êxito. Agora falta apenas um trecho em território brasileiro: Noronha - Fortaleza, mais 360 milhas para chegar ao último porto verde e amarelo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Salvador -> Maceió: Prova de fogo do Blue Wind


   Na segunda-feira dia 01 de Setembro voltei a Salvador após uma semana em Floripa resolvendo coisas de trabalho, da casa e também descansando um pouco da "função" da preparação do barco para a volta ao mundo. Ao chegar no aeroporto ainda tive que passar no setor de cargas da Gol para apanhar nosso radar, que havia pifado no Rio de Janeiro, e teve que voltar a Porto Alegre para ser consertado. No trecho anterior, havíamos navegado quatro dias e quatro noites sem radar, o que nos obrigou a estar muito mais atentos, principalmente à noite, deixando a viagem mais tensa.
   A partida para Maceió estava programada para quinta-feira dia 04 cedinho, aproveitando um vento de Sudeste de 10-12 nós, que, segundo a previsão, se intensificava na sexta-feira, chegando a 20-24 nós, condição perfeita para essa velejada. Um pouco forte no pico de 24 nós, mas como era a favor, pensamos que tudo seria muito tranquilo... Que ingenuidade!! Ainda não imaginávamos o que o destino nos reservara...

Previsão para o dia 04 a meia noite - Partida
   A semana foi bastante corrida. 
   Providenciamos a manutenção periódica do   gerador,   compramos  o  tão   esperado   "kit conforto" do cockpit, uns estofados e almofadas que deixarão nossas madrugadas bem mais confortáveis, entre muitos outros detalhes menores que precisavam ser resolvidos.
   O "stress" da semana ficou por conta de uma promessa não cumprida de um fornecedor, que ficou de nos entregar um equipamento para ser instalado em Salvador, e nos deixou literalmente "a ver navios". Acabamos tendo que sair sem o equipamento pois a janela de tempo que tínhamos programado para esse trecho não nos permitia esperar mais. Quanto mais confio nessa gente mais me decepciono. Se não tivesse acreditado na tal promessa teria dado outro jeito e tudo teria se resolvido.

   
Previsão para as 21h do dia 05 - Metade do caminho
   Na quinta-feira dia 04, após uma cuidadosa análise da última previsão do tempo, decidimos partir às 9 e meia da noite. A hora da partida se aproximava, aquela tensão pré "soltura das amarras" se intensificava e aquele friozinho na barriga começava a se manifestar. Sair à noite sempre gera uma tensão maior, afinal, como diz o ditado, à noite todos os gatos são pardos! 
   Dessa vez nosso radar funcionava, o que amenizava um pouco o nervosismo da partida noturna. Às 7 e meia da noite tomamos um bom banho e saímos para jantar na marina, talvez inconscientemente já prevendo que esta seria nossa última refeição decente nas próximas quarenta e oito horas. Não tínhamos ainda a menor noção do que nos esperava la fora... 
Precisamente na hora marcada, partimos rumo a Maceió!!

Saindo de Salvador
O vento estava exatamente conforme a previsão, Sudeste de 10-12 nós o que aumentou nossa confiança de que a viagem seria muito tranquila... Nosso rumo ao dobrar o Farol da Barra era 125°, bem na proa, no entanto sabíamos que, uma vez passada a Ponta de Itapuã, estaríamos em um rumo perfeito para uma velejada memorável, com ventos pela Alheta de Boreste até Maceió.

Definidos os turnos, fui dar uma descansada enquanto o Ruy assumia a primeira guarda da noite. Tentei dormir um pouco mas não consegui pegar no sono. Por volta de meia noite, quando passávamos pela Ponta de Itapuã, levantei e fui para o cockpit assumir meu posto. Nesse momento o Ruy se jogou pra dentro da cabine de popa e foi descansar. Me acomodei no banco de bombordo, inaugurando o estofado novo, e senti, naquele momento, uma sensação de muita paz e serenidade, que durou aproximadamente... uns 5 minutos!!

O vento passou instantaneamente de 12 para 20 nós, em seguida para 25, o barco começou a adernar e, quando me dei conta, já passava dos 30 nós. A princípio pensei ser um "Pirajá", fenômeno que ocorre muito por esses lados e que se trata de uma nuvem de chuva intensa, associada a ventos muito fortes, porém que duram apenas alguns minutos e em seguida desaparecem. Quando o vento chegou a 35 nós decidi não perder mais tempo e chamei o Ruy para me ajudar a rizar as velas (diminuir a área vélica para o barco sofrer menos) e assim conseguir continuar velejando sem quebrar nada. Até aqui tudo estava relativamente controlado pois apesar do vento forte o mar ainda apresentava boas condições de navegação. Não tardou muito para as ondas começarem a crescer e e o vento continuava na casa dos 30 nós, com rajadas de 35 chegando em alguns momentos a 38 nós. Lá pelas duas da manhã as ondas já estavam entre 4 e 5 metros e a navegação já começava a ficar bem difícil. O barco balançava muito e as ondas começavam a rebentar no costado inundando o cockpit e tornando a convivência naquele ambiente praticamente impossível. Assim foi a noite toda e eu apenas rezava para que o piloto automático aguentasse aquele pancadaria, caso contrário teríamos que assumir o leme e nossa vida se complicaria muito. Manter o rumo e timonear o barco nessas condições seria uma tarefa "hercúlea". Ao amanhecer o vento continuava igual e o mar ia ficando cada vez mais pesado, mas ao menos teríamos luz para enxergar melhor (a essa altura eu quase estava preferindo não ver!!). 

   E assim seguiu a viagem, sem a menor trégua, até chegar a Maceió. O cansaço aumentava cada vez mais pois era muito difícil dormir, devido ao forte balanço do barco, e muito difícil cozinhar, pela mesma razão. Nos alimentávamos à base de café, chocolate e barras de cereais. De vez em quando alguma fruta e muito raramente um sanduíche que dava uma trabalheira medonha para preparar. Apesar disso, o barco se comportava muito bem, o piloto automático aguentava firme e não havia nenhum sinal de que algo mais grave pudesse ocorrer, mesmo enfrentando condições duríssimas como essas.
É curioso como as sensações vão mudando.  Uma situação completamente nova, tanto para nós quanto para o Blue Wind, que no princípio parecia descontrolada, com o tempo se transformava em algo normal, quase uma rotina.    O ser humano se adapta ao ambiente em que vive. A confiança crescia à medida que o barco demonstrava solidez e também à medida que nos dávamos conta que havíamos aprendido a lidar com aquele ambiente hostil. A partir disso, passei a desfrutar da viagem, me imaginando com o barco ancorado em Maceió, protegido e com aquela gostosa sensação da missão cumprida. Essa havia sido, sem dúvida, a perna mais difícil de toda a viagem até agora. As 11 da manhã de sábado, dia 06 de Setembro, chegamos na Federação Alagoana de Vela e Motor, onde tenho muitos amigos e onde tivemos uma calorosa recepção de todos eles. Sempre é muito bom rever os amigos e, melhor ainda, após um momento de superação como esse. Estávamos literalmente de "alma lavada"! E o corpo também, com muito sal, diga-se de passagem!